Entre Parentes
Open Panel

A ARTE COM OS PARENTES!

A arte indígena contemporânea é a reafirmação da ancestralidade traduzida em conquistas e novas lutas por direito à vida plena aos povos originários. Antes que tudo vá definitivamente para o mundo dos espíritos, eles vêm nos visitar, todos.

Estive com outros artistas indígenas, junto com muitos espíritos ancestrais, no dia 30 junho de 2015, na sede do município de Nova Olinda do Norte - AM. Fomos a convite do povo indígena Maraguá para viver a experiência coletiva de sua I Mostra Cultural.

Sobre minha experiência:

Quando subia o Rio Madeira, a partir de Manaus, nas 12 longas horas de viagem em um barco médio comum, via tristeza e alegria. Estava cercado, sentia emoções por todos os lados. A velocidade da viagem não tirou de mim a sensação de estar ali, às margens, grudado com toda aquela gente e poluição. Amor e destruição. Numa perspectiva mais direta, foi a arte que me trouxe. Em outros sentidos, posso afirmar que é uma grande engrenagem ancestral que busca um realinhamento dos fatos, nos quais novos eixos se firmam como elementos fundantes ou fundamentais, compostos, fragmentados, reunidos. O sol tá quente demais, mas corre o vento. Chegará a um estado de fissão? Para entender, é como ter uma gota de água e, ali, a molécula suficiente para a nanotecnologia, a esperança, a chance da reconstrução infinita. Mas não vou obscurecer essa ideia. Vou facilitar, afinal, me veio, ao ser artista, a missão de esclarecer, não mais enganar. Sendo arte magia e estando a arte entre os indígenas desde sempre, devem os líderes se valer dessas habilidades. Usem a arte, explorem seus artistas, pois o tempo vai mesmo chegar. Em acréscimo a tudo, malícia moderna e tecnologia atual para colocar mais uma linha no já recheado caderno de prioridades do poder constituído: devolver aos povos originários ao menos parte do que lhe foi roubado abruptamente; tudo. Por que me tocou tão fortemente a iniciativa do povo Maraguá em reunir-se autonomamente na sede de um município que, em princípio, nem os reconhecia como tal? Por que me toca estar ali, vendo diante dos meus olhos os fragmentos se aglutinando e reconstruindo tudo com a força de algo inevitável? E desvio o olhar por um instante, vejo a grande onda, a força opressora novamente em duelo com os xamãs, e tenho novamente esperança e dúvida; angustia. Pode parecer duro, mas nesse plano visível, a terra palpável é da União. Os povos organizados reivindicam seus direitos, estar mais perto de seus tempos e espaços, estando junto seus Xamãs. Mesmo sabendo que tudo pode acabar-se, é assim a arte na vida. Somos nós agora mesmo romance, ideia, já que não existe ideologia. Olhem para os artistas mortos, demorem-se nessas cores vivas! Por sorte e por justiça, pelos que nunca mais verão o mesmo brilho desse paraíso, Amazônia, acredite.

Essa foi a minha viagem, o que será que eles sentiram?

Obras