Entre Parentes
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A grande jornada­­­­­­

Quero um dia bom. Quero cavalos selados, Normandia. Que sejam fortes, selvagens e voluntários. Que sejam belos e jovens, com seus arreios finos. Quero cachorros campeiros; quero somente bons companheiros. Quero gente no ajuri, eu vou partir.

Não tenho um mapa, vamos seguir os antigos, olhar para as estrelas. Vamos andar nas terras de Makunaima. Vamos a pé, a cavalo, de canoa, no ar. Vamos visitar a vida, reascender a memória. Vamos fazer paixão, farinha no malocão. Vamos vibrar, despertar uma nação. Vamos dormir, acordar e dormir no paraíso, o pé do monte Roraima. Vamos levar a lenda à plena visão.

 

Começo, aqui, a grande jornada.

Preciso de jamaxins, cunhadas, água, rancho e caxiri, curumim. Quero guia, pajé, e proteção. Preciso de oração, computador, bateria e máquina de fotografia.

Quero carne seca, peixe moqueado, pimenta e beiju na minha mão. Quero um mensageiro, rezador, homem santo que adormeça o canaimé pra eu passar.

Vamos passar, antes das grandes chuvas, vamos passar. Vamos partir. Por aqui parece bom. Que dia é hoje?

Tem lua de madrugada. Estamos indo, mandamos avisar. Quem vai querer nos ver? Quem vai nos esperar? Quem pode ter um pouco de tempo para nos dar?

Ah eu quero chegar, ser recebido pelo chefe com a cuia de água fria nas mãos. Ele estará radiante e todas as pessoas estarão felizes. A água não tremerá nas mãos fortes do grande chefe. A cuia estará firme, segura no ar. Ele me passará a água e eu, ainda montado no cavalo, beberei forte na fonte, no meio das serras. Isso é a nossa vida, nosso livro, nosso filme.

Vou apear, abraçar as  crianças, cair no parixara. Vou virar a noite, numa longa história, a primeira, a nossa. E vou pra rede, a jornada recomeça na madrugada.

Saímos de costas pro rubor do alvorecer. Ao longe, aracuãs cantam acordando tomo mundo com estridência. Veja como é linda a vastidão, os vales verdes e pradarias beges de nosso lavrado. Vamos galopar na paisagem, agora, somos só nós e ela. Vamos contornar os caimbés, cruzar correndo igarapés, jogar água com piaba, brincar de ser Anikê.

Bom dia parente!

Preciso de guarida, damurida, rede e barracão.

Vamos trocar. Eu vou colocar as bananas na mesa, a caixa mágica, eu abro depois. Vou cochilar um pouco, alimentar a minha preguiça de índio.

Quero prosa com a senhora, do senhor, a sua mão. Trago vida na garupeira, não sou o cabeludo da televisão. Sinto o cheiro do lugar, toco as pessoas, levo uma sina de viajante.

 Vou indo, vamos todos. Cavalguemos de manhã e paremos na beira para tomar chibé. Vou por Normandia, de onde pegamos a primeira tropa de cavalos. Vamos seguir beirando o Uailãn até topar acima o Uraricoera, no Amajari.

Parentes, como estão por aqui? E o mundo por esses lados? Posso ficar? O mensageiro passou aqui?

Esse é meu pessoal. Estamos viajando para viver, ver e mostrar. Depois das chuvas, vamos voltar pra contar e mostrar o que a gente viu, pra falar o que a gente sentiu. Vou mostrar esse dia aqui, que a gente tá vivendo agora. Mas já será futuro e vamos vivê-lo mais uma vez, até o infinito de nossas gerações.

Obrigado, e a toda comunidade. Vou indo com meu pessoal.

Obrigado pelo mocororó, pela história do jabuti, por manter vivo tudo isso.

Qual é o caminho agora?

Já desenhava o horizonte e as sabiás anunciavam a partida dos netos de Makunaima. Estavam deixando o terreiro, saindo além porteira. Os cavalos descansavam na caiçara, olhando aliviados o ir, a esperar o breve retorno dos viajantes. 

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